sábado, 28 de outubro de 2017

No silencio cortávamos cebolas e dizíamos uma coisa ou outra que não precisava ser dita ou não faria muita diferença, mas que dizíamos para enfeitar o silêncio que nos vestia e para nossos corpos ficarem menos nu, menos expostos a qualquer indiscrição. Me falava sobre o que comer, sobre as horas que passou no mercado, sobre as pessoas que ficaram gripadas por causa da secura, eu pensava em responder algo mais animado para continuar a escutar suas palavras e receber sua atenção, mas me sufocava com a falta de ar, o meu peito pesado com tantas palavras engolidas. Eu pensava em derrubar um copo para quebrar a tensão que sentia, para que brigasse comigo e eu pudesse responder e expressar minha raiva. Em breve acabaríamos de preparar a comida e eu tentava me lembrar que depois ficaria tudo bem, e assim o vento ia nos levando como a dois balões sem direção pelo infinito, sem controle ou qualquer garantia que fossemos prosseguir lado a lado por muito tempo. De madrugada eu acordava com toda a coragem e angústia necessária para estourar nossas bolhas, mas logo passava. 

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