sexta-feira, 22 de junho de 2018

Voarás

É medonho de forte o tanto de história cada corpo guarda, mas apesar dele não rachar ou, justamente, PARA ele não rachar, ele se enche de defesas, como se fossem várias blusas de frio que vão deixando nossos movimentos limitados e asfixiando nossa expressão . É preciso se movimentar com toda a intensidade possível, com toda força possível para rasgar essas amarras. No movimento, a gente silencia o que tá fora e vai ouvindo o que o corpo quer dizer e se acolhendo. Encontramos algo bem nosso, uma conexão profunda que nos possibilita achar o que é a gente no meio de tanta "roupa". E assim, devagarzinho, cada vez mais fundo, a gente vai se descobrindo. 


terça-feira, 29 de maio de 2018

Como pássaro no ar

Sinto uma força brotar de mim, agora sou forte. Eu que medrosa sempre, dormi incontáveis vezes com a luz acessa, deixei de apresentar trabalho na frente da turma e mal expressava meus sentimentos. Digo! Olho-me com respeito, reconheço minha história. O machismo sufoca, por isso os nossos silêncios, por isso a ausência de gritos. Enquanto ele age, o cotidiano é luta, simplesmente travamos a batalha de acordar, andar na rua e ter esperança. Eu resisto! 



segunda-feira, 26 de março de 2018

A cura da solidao


Entre mãos,
o coração pulsa
foliador
e expulsa
a aflição
de se ser longe.
A vida nos costura
em pleno domingo
e eu vou:
sou a criança e a senhora
em tempos distintos,
sou eu e vocês
sentada em roda
e sorrindo.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Existe amor debaixo do tapete

No metro, tudo estava como sempre é, as cadeiras ocupadas e pessoas escoradas em seus cansaços. Um homem oferecia o seu lugar a cada mulher que entrava no vagão, estas diziam não precisar e agradeciam. Olhei bem para ele e vi um menino pedindo colo, era isso que ele queria oferecendo seu assento, um colo no anseio de encontrar um olhar materno. Meu coração apertou, havia uma pista entre nós e eu fui até seu lado da calçada. Fiquei um pouco irritada com a intromissão dos meus olhos, porque temos esse poder de enxergar as pessoas, essas tão apagadas em suas vidas cotidianas? É como mosquitos que de repente entram nos nossos narizes, bocas, olhos e temos que tragá-los sem querer. Eu queria ter me levantado e ido embora, romper os laços que iam se formando e olhei para o chão até a hora da descida.

 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Apreendendo

 
 
Cada vez que toco o outro me reconheço, o outro é uma parte de mim desconhecida, por isso eu preciso tocar, sentir para compreender, o distanciamento é ilusão/ alienação.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Universidade e suas alienações

O que está matando nosso senso de humanidade e de sensibilidade ao nos percebermos e percebermos o outro? Por que me parece que perdemos isso e não notamos no nosso dia a dia. Pensei que quando entrasse na academia, encontraria pessoas que se mobilizassem contra isso, mas o que vi foi muita insensibilidade e descaso com as pessoas mais vulneráveis que fazem parte dela. Que tipo de comunidade saudável ignora os problemas das partes mais frágeis? São vários debates para discutir opressão, desigualdade, mas de prático o que é feito para melhorar as condições de vida dos terceirizado, das mulheres e outros grupos que dela fazem parte? Sim, tem pessoas que fazem isso, são poucas e não ganham o mesmo status do professor (a)/aluno(a) que publica mil artigos e organiza eventos grandiosos, porque eles estão ocupados orientando seus alunos, preparando aulas, manifestando-se, organizando-se em assembleias, etc.. Agradeço por ter participado de projetos que me aceitaram com as minhas humanidades, minhas dificuldades e desafios, que me ensinaram a escutar o outro e a ver que não estou sozinha, não sou a única a ter problemas, projetos que me ajudaram a ser mais compreensíveis com a realidade do outro. Agradeço ao professor Umberto Euzebio, grande mestre que nos proporciona uma formação mais humanitária e acredita no potencial de cada um.


sábado, 28 de outubro de 2017

No silencio cortávamos cebolas e dizíamos uma coisa ou outra que não precisava ser dita ou não faria muita diferença, mas que dizíamos para enfeitar o silêncio que nos vestia e para nossos corpos ficarem menos nu, menos expostos a qualquer indiscrição. Me falava sobre o que comer, sobre as horas que passou no mercado, sobre as pessoas que ficaram gripadas por causa da secura, eu pensava em responder algo mais animado para continuar a escutar suas palavras e receber sua atenção, mas me sufocava com a falta de ar, o meu peito pesado com tantas palavras engolidas. Eu pensava em derrubar um copo para quebrar a tensão que sentia, para que brigasse comigo e eu pudesse responder e expressar minha raiva. Em breve acabaríamos de preparar a comida e eu tentava me lembrar que depois ficaria tudo bem, e assim o vento ia nos levando como a dois balões sem direção pelo infinito, sem controle ou qualquer garantia que fossemos prosseguir lado a lado por muito tempo. De madrugada eu acordava com toda a coragem e angústia necessária para estourar nossas bolhas, mas logo passava.