Quanta coisa o
corpo guarda, calado e opaco, caroços que nos entalam/ machucam/asfixiam e doem
a cada toque que recebemos, mesmo que com afeto. Às vezes a gente grita e
outros dói para falar, tudo está tão confuso por dentro que as palavras se
embolaram, já não saem lineares e ninguém nos entendem. Pela janela dos olhos,
fugimos, deixamo-nos em busca de conforto longe desse corpo tão doído e
tensionado. Quando nos olham/notam, somos descobertos e chamados à realidade e
tão desconfortavelmente nos colocamos diante do mundo/ dos outros. É
desconfortável respirar, não saber o que fazer com as mãos, para onde olhar,
conversar sentindo cada palavra sair como um metal da garganta e disputando a
mente com os pensamentos negativos que ficam rodeando nossas cabeças. Há um
buraco negro que suga nossa energia, nosso tempo e nosso amor, nos perdemos em
um espaço frio e incompreensível. Buscamos conforto em religiões e elas nos
dizem que a dor é da condição humana: viver é um fardo que temos que aguentar
para conseguir nossa salvação e todas as dores são provações de Deus. Há
pessoas que se confortam/conformam com essas crenças e outras que
endoidecem/adoecem. Meu corpo se rebelou a cada discurso desses, adoecia,
tremia, pulsava forte, vibrava de raiva e indignação. Em meio a surtos e
perturbações, exigiu-me cuidados, uma atenção e escuta sensível às suas
necessidades, por certo tempo tive medo das suas reinvindicações, achava que
era mais um ataque da vida. O dia durava
mais e tinha que preencher cada segundo, pois sentia-os com muita intensidade e
meu corpo se apresentava exposto em carne viva. Nesses momentos, o sol me
tocava (e não machucava), era uma sensação tão boa que sentia vontade de rir e
chorar sentindo ele me envolver, vinha o vento e levava os pensamentos ruins
embora, deitava na grama e seu cheiro me preenchia como se fosse uma vitamina
que faltava. Tomava banho de água fria e sentia meu corpo pulsante e vivo,
enxergava uma força grandiosa, deitava no centro de pedras que me fazia sentir-me
numa fortaleza. Foram vários aprendizados com a lua, com as plantas, com as
pessoas, com a terra, as pedras, as águas, o invisível, as cores, o tempo. Percebi
que o planeta vibra em cura, suas matas são fortalecedoras/ dão nos força, as
plantas têm remédios para todas as nossas dores, as pedras nos protegem e
energizam, são inúmeras as possibilidades de cuidados que o mundo nos oferece,
é realmente grande mãe/pai. São crenças antigas que nos cegam, nos limitam em
nossas possibilidades, nos impõem uma visão de mundo onde tudo isso são
recursos naturais, bens de consumo, objetos para serem servidos em prateleiras
e vendidos no mercado como coisa a parte de nós. É uma contradição grande e antiga
nessa terra. Que esse texto possa trazer um outro olhar para esse chão que nos constituímos,
cheios de encantamentos, presenteando-nos a todo momento com suas emanações de vida
e amor. Ele cuida, precisamos saber como, é um processo de sintonia e conexão
com o solo, compreender que nossas raízes estão lá embaixo, precisando serem
olhadas, nutridas para continuarmos a crescer e gerarmos flores cada vez mais
bela, este é o remédio. É uma grande caminhada, necessitamos nos silenciar e
nos esvaziarmos dos valores e concepções que nos foram passados, colocarmo-nos
na posição de filha/o, depois o sol vai mostrando o caminho. É tudo nosso, nada
deles!
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